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domingo, 10 de outubro de 2010

Racionalidade Irracional


               Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie.E o instinto serve melhor porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem que comer,porque tem que viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela ,e que a morde, e a mata, e a devora, parece que nosso coração sensível dirá " que coisa tão cruel." Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não o animal, aquilo não é crueldade, o animal não tortura, é o homem quem tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e não o é;eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.
               Aquela idéia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a idéia que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa idéia eu digo:pois sim, é tudo muito bonito, são de facto simpáticos, são adoráveis, mas deixamos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitos dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?
               Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, essas que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisa, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar ( se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para alcançar aquilo que se quer.
               Falamos muito ao longo destes últimos anos( e felizmente continuamos a falar ) dos direitos humanos; simplesmente deixamos de falar de uma coisa muito simples, que são deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro da existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.


                 José Saramago, in " Diálogos com José Saramago"
Fonte:www.citador.pt
              

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