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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O corvo - The Raven


Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."


Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.


E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."




Minh' alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais


Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.


Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais tarde; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Ela, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas.
Acima voa dos portais
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?
E o Corvo disse: "Nunca mais."


Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta,
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais."


No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."


Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranquilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.


Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso.
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."


"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
esta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."


"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."


"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."


E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


Edgar Alan Poe
Versão/Tradução: Machado de Assis (1883)

  


Edgar Alan Poe mestre inconteste do terror e do suspense escreveu muitos contos e poemas.Nasceu em Boston dia 19 de janeiro de 1809 e morreu em 1849.

 
 
 

*Minha paixão pela literatura fantástica começou escutando as histórias de terror/lendas/folclore que minha vó me contava nas tardes de minha infância. E como apreciadora do gênero não poderia deixar de ser fã de Poe! 
Espero que gostem do poema! 


Beijos

19 comentários:

Lis Fernandes disse...

Bom dia mana!!!
Nossa, tamanho é seu amor pelos livros que postou um hoje. rsrs.
Nunca li um livro de terror, mas acredito ser pior que um filme, pois a imaginação corre mais solta. E eu não teria você pra dormir comigo na mesma cama como fazíamos quando crianças. rsrsrs.
Parabéns um super post, bem elaborado.
Beijos,
Lis

P.S : Tenho saudades dos seus contos. Não devia ter parado.

✿ chica disse...

Poema lindo demais mas concordo com a Lis> Queremos teus contos de volta.Fazem falta! Tens inspirações lindas! beijos,ótimo dia! chica

Vera Lúcia disse...


Olá querida,

É uma linda obra este poema.
Também sou fã deste tipo de literatura. Adoro livros e filmes de terror e suspense e tudo que envolve o sobrenatural me fascina.

Bem lembrado acima pelas amigas. Também sinto saudades de seus envolventes e bem elaborados contos.

Excelente final de semana.

Beijosssssssssssssss.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Um texto muito "de prender a atenção
à espera do seguimento". Gostei
muito e está muito bem escrito.
Bjs.
e bom fim de semana.
Irene Alves

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Vivian
Apesar de lindo e completo, tétrico e
cheio de mistérios. Ki meda rsrsrsrs
Bjux

Sissym Mascarenhas disse...

Vivian,

Fantastico escritor.
Estas imagens foram perfeitas, voce que as escolheu para compor ou já faziam parte ?

Bjs

André Foltran disse...

Este poema é incrível! Tenho preferência pela tradução do Pessoa, se assemelha mais ao ritmo e forma originais, mas Machado fez, sem dúvida, um excelente trabalho.

Abraço.

Evanir disse...

Eu sempre procuro levar palavras de Deus,
palavras de amor e muitas vezes de
conforto quando alguém precisa .
Nunca soube falar nem colocar amigas
ou amigos um contra outro isso é pura maldade.
Em minha postagem procuro sempre postar
coisas , que sinto de verdade mesmo nao
sendo minhas as poesias ou reflexão.
Foi com muita tristeza , que fiz a postagem de hoje
sinto doer meu coração por estar vendo ,
que muita coisa mudou .
Em quase dez anos no mundo virtual.
Hoje venho te desejar um feliz e
abençoado final de semana.
Que , nossa amizade seja eterna
vivendo sempre na fé ,
que conduz nossas vidas ,
e no amor , que alimenta nossas almas.
Beijos ternos e carinhosos hoje e sempre sua amiga.
Evanir.

eduardo medeiros disse...

Amiga, sensacional o poema do Poe. Sinceramente eu não sabia que ele também escreveu poemas.

Belíssima e literalíssima postagem!! rsss

beijos
bom final de semana

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Há tempos
não lia Edgar.~
Este poema
lido há muitos anos,
impressionou-me
de tal forma,
que sempre que no interior
via um pássaro,
parecia escutar o corvo
do poeta,
e sua soturna frase.

Que a alegria dance
em tua vida apaixonadamente.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Um texto de prender a respiração, adoro este tipo de literatura.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

MARILENE disse...

Você nos trouxe o mestre e amei ler o poema. É fascinante. Esse gênero atrai e mexe com a imaginação.
Que o "nunca mais" se resuma ao que machuca e incomoda. Que as demais portas permaneçam abertas, sem conotação com o fim.
Tenha uma linda e produtiva semana, querida, com muita luz. Bjs.

Tais Luso disse...

Você simplesmente postou o 'Top', o belíssimo e conhecido poema de Edgar Alan Poe!!
PARABÉNS PELA POSTAGEM!
Beijos, Vivian..

Evanir disse...

Com muito carinho depois de um breve afastamento ,
espero realmente , que não precise me ausentar
mais por tanto tempo.
A saudade é bem grande mais tenho ,
que aceitar o desígnios de Deus.
Na vida existe ontem e hoje o amanhã
é desconhecido nunca sei se chegarei
lá por isso só vivo o hoje .
Com muito carinho desejo um abençoado final de semana
beijos no coração afagos na sua alma .
Carinhosamente,Evanir,

Lilá(s) disse...

Este poema parece-me uma linda obra mas, gosto mais dos contos estilo Vivian!
Bjs

Sotnas disse...


Olá Vivian e que tudo esteja bem!

Ainda não havia lido algo deste escritor, mas, sempre é tempo de ler e, cá estou neste teu canto admirando tuas belas postagens, e encantado por você compartilhar tão belos escritos.
Esta versão de Machado está ótima, ao menos para este leitor amigo, parabéns!
E eu grato por tua amizade e visitas eu desejo que seja sempre deveras intenso e feliz o teu viver, grande abraço e até mais!

Néia Lambert disse...

Poe é demais! A leitura é feita sem querer interromper, uma grande obra!

Beijos

MARILENE disse...

Você sumiu!!!! Espero que esteja tudo bem e que seja apenas falta de tempo. Grande beijo!

comprar flores disse...
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