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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Poucos amigos


                                                                                             JR Guzzo                                                        
       

       Numa dessas anotações que certamente contribuíram para lhe dar a reputação de grande fotógrafo da existência humana em sua época, Stendhal observou que a Igreja Católica aprendeu bem depressa que o seu pior inimigo eram os livros. Não os reis, as guerras religiosas ou a competição com outras religiões; isso tudo podia atrapalhar, claro, mas o que realmente criava problemas sérios eram os livros. Neles as pessoas ficavam sabendo de coisas que não sabiam, porque os padres não lhes contavam, e descobriam que podiam pensar por conta própria, em vez de aceitar que os padres pensassem por elas. Abria-se para os indivíduos, nesse mesmo movimento, a possibilidade de discordar. Para quem manda, não pode haver coisa pior – como ficou comprovado no caso da Igreja, que foi perdendo sua força material sobre países e povos, e no caso de rodas as ditaduras, de ontem, de hoje e de amanhã. Stendhal estava falando, na sua França de 200 anos atrás, de algo que viria a evoluir, crescer e acabar recebendo o nome de “opinião pública”. Os livros, ou, mais exatamente, a possibilidade de reproduzir de forma ilimitada palavras e ideias foram a sua pedra fundamental.                      A leitura de livros, ou de qualquer coisa escrita, não parece estar num bom momento no Brasil de hoje; a opinião pública também não. Vive-se uma época em que a cada três meses é anunciada alguma “revolução” nisso ou naquilo, depois da qual o mundo nunca mais “será o mesmo” de antes. Quando tais  portentos envolvem áreas ligadas à comunicação, sempre se insiste, de um jeito ou de outro, em prever que a leitura está a caminho de se transformar num hábito do passado. Cada vez mais, no dia a dia, sua valorização posta de lado – ou “relativizada”, como se diz. É comum, por exemplo, ouvir declarações lamentando que árvores sejam cortadas para produzir papel destinado à impressão; a única forma aceitável de leitura, para muita gente boa, deveria ser a tela de algum artefato digital. Empresas de grande renome não consideram uma virtude, no julgamento de seus executivos, o gosto pela leitura, a não ser que se trate de publicações profissionais. Não passa pela cabeça de nenhum recrutador perguntar a um candidato a emprego o que ele está lendo, por mais alto e bem pago que seja o posto a ser preenchido. É claramente desaconselhável ao funcionário, no ambiente de trabalho, deixar sobre a mesa qualquer livro que não seja diretamente ligado à sua atividade. Arrisca-se, caso contrário, a ser interrogado pelo chefe: “Por que você está lendo isso?”.             Nas novelas de televisão, que continuam sendo o principal entretenimento para milhões de brasileiros, jamais se vê um personagem lendo um livro. Discute-se com muito calor, no momento, quantos beijos entre pessoas do mesmo sexo podem ser dados num capítulo, ou se um casal gay pode aparecer tomando o café da manhã na cama; prega-se, ao longo da trama, todo tipo de causa, da defesa das geleiras à política de cotas raciais, da preservação dos mangues à condenação da gordura trans. O que não aparece, de jeito nenhum, é alguém lendo alguma coisa. O ato de ler também está banido da publicidade de consumo; há uma clara preferência, aí, por algo que se parece muito com um culto intensivo à boçalidade. Da atitude geral do governo diante da leitura, então, é melhor nem falar; registre-se, em todo caso, sua profunda satisfação em anunciar, sempre que é incomodado pelo noticiário de escândalos publicado na imprensa, que “o brasileiro não lê nada”.
         Naturalmente, ninguém se coloca hoje como inimigo dos livros; mas é certo que muitos se beneficiam com o fato de que a leitura, nestes dias, tem poucos amigos na praça. Quanto menos se lê, menos ideias são mantidas em circulação. Quanto menos ideias, menos espaço sobra para a discordância, a procura de alternativas e a fiscalização dos atos do governo. O resultado, na prática, é uma indiferença generalizada em relação ao comportamento de quem governa. Não há muito a fazer quanto a isso. A opinião pública não tem nenhuma obrigação de pensar assim ou assado, muito menos de estar “certa” – ela é o que é, e parece perfeitamente inútil esperar que sinta o que não sente, ou que queira o que não quer. Essas realidades, entretanto, têm o seu preço. No caso do Brasil atual, o desinteresse pelo que acontece na vida pública é pago com a multiplicação, em ritmo cada vez mais rápido, de todo tipo de parasitas dedicados a prosperar com o dinheiro do Erário. É certo que eles não irão embora por sua livre e espontânea vontade.



Publicado na Revista VEJA em 3/8/11 

Passaram-se cinco anos e o texto continua atual...
Vamos fazer nossa parte para mudar isso! Vamos ler mais e sempre que possível vamos divulgar e incentivar a leitura!
Vivian


* Stendhal Marie Henri Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 – Paris, 23 de março de 1842) notabilizou-se como romancista e crítico. Seu estilo, ao contrário do excesso de ornamentos, valorizava o perfil psicológico dos personagens, a interpretação de seus atos, sentimentos e paixões. Seus romances mais conhecidos são: Do amor (1822), O vermelho e o negro (1831) e A cartuxa de Parma (1839), obras de notável análise psicológica, escritas todas elas com uma precisão e uma nudez simultaneamente naturais e intencionais. 


*José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. Guzzo, é um jornalista brasileiro.


                                  

19 comentários:

✿ chica disse...

Muito lindo o texto e faz pensar...Bem atual e sempre creio, estará! A leitura deve estar em nossos hábitos, ainda que muitos prefiram um povo que não lê...

Lindo fds, felicidades aos papais em seu dia! bjs, chica

Toninho disse...

Oi Vivian que bela partilha apresenta aqui neste cantinho do saber.
Stendhal deveria ser uma obrigação de leitura, mas como bem coloca o artigo, não interessaria muito aos detentores do poder. Engraçado com a historia dos livros sempre esteve sob o domínio do poder e assim milhões pelo mundo viveram numa escuridão profunda e assim que foi criada a geração de analfabetos políticos, que sustenta os crápulas no poder.Quando se buscou a corrente de que um país é feito de livros, logo o projeto perdeu suas forças e morreu.Cabe cada um como formiguinhas incentivar a leitura, facilitar o acesso e criar uma onda de leituras abrangente, pois os clubes existentes carregam um ar de elitistas e não há interação ampla que a leitura deve provocar, criando seres críticos e politizados em todos os campos.
Muito boa postagem Vivian que deveria ser lida por muitos.

Um bom lindo fim de semana amiga.
Deus a abençoe sempre com esta inteligencia.
Meu abraço com carinho.
Bjs de paz

Rosa Mattos disse...

É impressionante o quanto o texto permanece atual e isso é bem preocupante. Se por um lado temos acesso fácil a livros em formato impresso ou digital, por outro, a loucura desenfreada desse mundo moderno nos faz ter cada vez menos tempo para fazermos pausas para ler um bom livro. Os exemplos seriam bem válidos, em cenas de novelas, filmes, mostrando como algo natural pegar um livro e envolver-se nele. Vamos torcer para que isso se modifique porque é através do conhecimento que evoluímos para melhor.

Bom final de semana pra ti, amiga.
É muito bom ter você de volta na blogosfera.
beijinhos

Mary Brown disse...

O mesmo se passa em Portugal e até os blogs estão a perder importância de dia para dia. As pessoas perdem-se nas redes sociais, no famoso Facebook, tudo acontece lá. Não se lê, não se sai com os amigos porque não se pode perder o que acontece no facebook. Não tenho facebook, sou contra redes sociais, não têm nada a ver comigo, adoro conversar pessoalmente e estar com as pessoas. Tenho muito pouco tempo para ler porque tenho uma vida que me preenche totalmente mas tenho saudades do tempo em que passava noites a ler. Espero voltar a ter essa oportunidade porque a leitura é uma companhia importantíssima no desenvolvimento de um ser humano.

Vera Lúcia disse...


Olá querida Vivian,

Você nos trouxe uma excelente reportagem, que apesar de datar de 2011, mostra que pouca mudança houve desde aquela data no que pertine ao interesse pela leitura e pelo conhecimento. Observo que já houve uma melhoria no interesse pelos livros bem como na participação do povo nos fatos/acontecimentos políticos, mas insuficiente ainda para motivar mudanças significativas no cenário da política e outros. Um povo culto não se deixa subjugar, já dizia Maquiavel. E assim é. Somente através do conhecimento poderemos nos libertar e lutarmos pelo que acreditamos.

Vale ler a frase em destaque no seu espaço, de Glugiermo Ferrero: "A cultura ajuda um povo a lutar com as palavras, em vez de o fazer com as armas".

Obrigada pelo carinho, amiga! Recebi seu recadinho (e comentário) através da mana.

Felizes dias.

Beijo.

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Com certeza, quem está no comando não quer os comandados instruídos, cultos, basta ver a banalização cultural ,seja na música, na artes em geral, nas novelas, nos filmes. Coisa ruim que está atingindo até mesmo a própria literatura. Esse é o interesse dos governos e a mídia é parceira dessa tragédia. Beijos e parabéns.

Calu B. disse...

Totalmente atual, infelizmente.Nesta realidade reside um ranço secular ao qual não podemos nos deixar contaminar.É preciso-urgente que o bom combate contra a mediocridade seja contínuo.

Brilhante texto.Perfeita partilha.
Bjos, Vivian,
Calu

Aleatoriamente disse...

Bom dia linda Vivian!
Amei o texto, que além de nos deliciar com conteúdos interessantes, aborda a importância de se ler.

Beijinho

Beatriz Bragança disse...

Querida Vivian
O seu texto está certíssimo e é intemporal.
Se ao menos as pessoas soubessem que, quem lê, tem, pelo menos dois anos a mais de vida!!! É verdade! Está comprovado.Mas não só pelo aumento da esperança de vida.Ler é fundamental.
Em Portugal, desde que eu era bem novinha, havia o hábito de carrinhas biblioteca passarem pelas aldeias para que todos tivessem o acesso a livros. Felizmente, esse hábito ainda se mantém, pois há povoações bem isoladas e longe de centros com mais população e com um edifício que albergue uma boa Biblioteca.
Não era uma boa ideia que o mesmo acontecesse no Brasil?!
Parabéns pelo seu texto.
Um beijinho
Beatriz
VIDA E PENSAMENTOS
http://pegadasdeanjo.blogspot.com

MARILENE disse...

Vivian, querida, uma publicação tão importante! Observo até que, mesmo em redes sociais, se a escrita tem mais de cinco linhas não é lida. Fixam-se as pessoas, tão somente, na imagem. Quantos caminhos poderiam ser abertos se o hábito da leitura fosse estimulado! Mas isso é um perigo para os que abraçam o poder como objetivo único de vida. Quanto menos os indivíduos se aperfeiçoam, melhor para quem os domina. Grande beijo!

eduardo medeiros disse...

Oi.

Ótimo texto. Já fomos mais leitores em décadas passadas. Infelizmente a Ditadura Militar solapou o pensamento crítico,proibiu filosofia e sociologia nas escolas. Verdade que era um outro tempo, um outro contexto, Guerra Fria, etc. Mas vejo hoje em dia muitos adolescentes voltando a ler livros, e isso começou com Harry Porter. O importante é criar o hábito da leitura, porque depois de ler Porter você vai querer ler outras coisas.
Agora, pessoalmente gosto dos e-readers como o Kindle e o Kobo. Não tenho muito fetiche pelo objeto livro, para mim o importante é a leitura.

Beijos, Vívian!!

Percebeu que estou fazendo uma faxina nos blogues? Já deletei alguns e pretendo postar só nesse novo que você visitou. Aos poucos vou vencendo a preguiça de escrever em blogue outra vez....rss

Lucinalva disse...

Olá Vivian
A leitura enriquece, ótimo texto. Um forte abraço.

Manuel disse...

Magnifica, e a propósito, a partilha deste texto.
Vim matar saudades e deixar muita amizade num beijo.

Giancarlo disse...

Ti auguro che il Nuovo Anno inizi bene, prosegua come desideri e termini con grandi soddisfazioni affinché i sacrifici e i progetti seminati nel 2016 possano portarci i frutti meritati.

Evanir disse...

Minha amiga Querida.
O tempo passa mas pessoa linda de coração e alma
não da para esquecer.
Além das saudades conservo no coração nossa linda viagem juntas
por tanto temo.
Deus lhe de saúde amiga.
Um 2017 de paz e amor.
Te abraço forte com carinho.
Evanir.

Luis lourenço disse...

Excelente texto: Contém valores fundamentai s para o presente e o futuro da humanidade.
Há muito tempo que não visitava seu blogue, não porque me tivesse esquecido da nossa amizade estrelar e da qualidade fantástica da sua página, mas por razões pessoais que não interessa aqui elencar...
Deixo-lhe o meu abraço de sempre e os meus parabéns pelo sucesso na sua formação académica e profissional.

Fernanda Costa disse...

Bom dia

Meu nome é Fernanda Alves, eu falo em nome da Lionshome. Estou entrando em contato com você, pois estamos analisando blogs em todo o Brasil para fazerem parte de nossa Rede de Blogs e o seu blog foi selecionado.

Nós gostamos bastante do conteúdo da sua página. Temos certeza que nossos usuários vão gostar e se informar melhor.

Só explicando um pouco melhor sobre a LionsHome, nós somos uma Startup localizada em Berlim que durante seus dois anos de vida vem crescendo rapidamente. Recentemente lançamos nosso Website no Brasil e estamos buscando Blogs com conteúdos interessantes e interativos para fazer parte da Rede LionsHome de Blogs.

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Espero que tenha gostado!

Qualquer dúvida, estou à disposição.

Fico no aguardo.

Abraço.



--
Fernanda Costa
Marketing & Community Manager Brazil

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www.lionshome.com.br

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Steuernummer: 37/441/22079
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SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Leio o Guzzo e realmente ele tem razão. Pode ser que o país seja passa a limpo, mas acho difícil. Abraço fraterno. Laerte.

PAULO TAMBURRO. disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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